"Davi foi até os duzentos homens que estavam exaustos demais para
segui-lo e tinham ficado no ribeiro de Besor. Eles saíram para receber
Davi e os que estavam com ele. Ao se aproximar com seus soldados, Davi
os saudou. Mas
todos os elementos maus e vadios que tinham ido com Davi disseram: 'Uma
vez que não saíram conosco, não repartiremos com eles os bens que
recuperamos. No entanto, cada um poderá pegar sua mulher e seus filhos e
partir'. Davi respondeu: 'Não, meus irmãos! Não façam isso com o que o Senhor nos deu. Ele nos protegeu e entregou em nossas mãos os bandidos que vieram contra nós. Quem
concordará com o que vocês estão dizendo? A parte de quem ficou com a
bagagem será a mesma de quem foi à batalha. Todos receberão partes
iguais'. Davi fez disso um decreto e uma ordenança para Israel, desde aquele dia até hoje" (1 Sm 30.21-25)
A Bíblia não é apenas um livro de mandamentos e ordenanças. A Bíblia é também um livro de princípios e de bons conselhos. E acima de tudo, a Bíblia não é um livro de escravização, punição e de condenação. Em sua essência, Ela é um livro de liberdade e redenção. Por não entender essas verdades simples e fundamentais, muitas pessoas se afastam horrorizadas da Bíblia como se ela fosse inimiga da liberdade individual e da felicidade.
Acima de tudo, a Bíblia não é um tratado político. Ela não defende essa ou aquela ideologia. Tampouco apresenta uma ideologia como ideal, em detrimento de outra. Por isso, não podemos criar uma ideologia e ajustar as verdades bíblicas a ela. O processo deve ser inverso. Devemos compreender as verdades bíblicas, os mandamentos e os princípios e aplicar tudo isso à nossa ideologia, qualquer que seja ela.
Davi tinha seiscentos homens sob seu comando. Homens corajosos e dedicados. Em certa ocasião, eles perseguiram um destacamento de amalequitas que haviam atacado e saqueado a cidade onde moravam. Durante a perseguição, duzentos soldados ficaram para trás por estarem exaustos. Aqui, mais uma vez vemos como as pessoas são diferentes e não apenas isso, mas como essas diferenças precisam ser respeitadas.
Dos seiscentos soldados, duzentos ficaram impossibilitados de seguir adiante na perseguição e entrar na batalha contra os inimigos. Conhecendo minimamente a Natureza Humana, não é difícil imaginar que a partir do momento em que a exaustão foi considerada um motivo legítimo para não seguirem com o grupo, muita gente capaz alegou exaustão para também ficar para trás. Alguns não estavam exaustos fisicamente, mas estavam com medo dos amalequitas. Outros estavam emocionalmente abalados com as perdas que tinham sofrido. Outros eram preguiçosos. E, como não poderia faltar, certamente havia também os malandros que viram ali uma oportunidade de deixar outros se arriscarem no lugar deles.
O texto bíblico narra que quatrocentos soldados seguiram adiante na perseguição, alcançaram os inimigos, se engajaram no combate e venceram: "Nada faltou; nem jovens, nem velhos, nem filhos, nem filhas, nem bens nem qualquer outra coisa que fora levada. Davi recuperou tudo. E tomou também todos os rebanhos dos amalequitas, e seus soldados os conduziram à frente dos outros animais, dizendo: 'Estes são os despojos de Davi'" (1 Sm 30.19,20).
No retorno, quando os dois grupos se reuniram novamente e chegou o momento de dividir os despojos, ficaram diante de um dilema: Seria justo que os duzentos soldados que não participaram da batalha, tivessem parte nos despojos?
MERITOCRACIA
"Todos os maus e vadios que tinham ido com Davi disseram: 'Uma vez que não saíram conosco, não repartiremos com eles os bens que recuperamos. No entanto, cada um poderá pegar sua mulher e seus filhos e partir'" (1 Sm 30.22)
"Quem se esforçou, é recompensado. Quem não se esforçou, fica sem nada!". Quando mal interpretada, é isso que diz a Meritocracia. Os duzentos soldados que não participaram da batalha, não tinham direito ao despojo. Faz sentido, é claro.
A Meritocracia então, dividiria os soldados em dois grupos: Um grupo inferior, composto pelos fracos, subnutridos, medrosos, preguiçosos e malandros (pessoas diferentes, com motivos diferentes, todas colocadas no mesmo grupo!). E o outro grupo superior, formado pela elite dos mais fortes, os mais bem alimentados, mais dedicados etc.
A meritocracia dentro da meritocracia
Os "maus e vadios" (perceba como a Bíblia destaca esse detalhe) sugeriram que o despojo fosse distribuído de acordo com o mérito individual. Muito bem. Vamos chamar os quatrocentos soldados que participaram da batalha, um a um. Vamos elaborar um questionário. "Quantos inimigos você matou? Você ficou na linha de frente ou ficou na retaguarda? Sofreu algum ferimento? Quantas flechas disparou? Qual o índice de aproveitamento, as flechas disparadas e os inimigos mortos?".
Homens "maus e vadios" não são dados a heroísmo ou a sacrifícios. Geralmente são covardes, se escondem atrás de outros, pisam em cima de outros, fazem qualquer coisa para sobreviver. Entre os duzentos que ficaram para trás, certamente havia soldados mais valorosos, mais corajosos e mais nobres do que os "maus e vadios" que agora reivindicam uma parte maior do que a merecida e apelam para um falso senso de justiça.
A FALÁCIA DA MERITOCRACIA
Às vezes o mendigo sentado na calçada é mais capaz do que o gerente do banco ou o executivo da empresa multinacional. Às vezes o empregado tirou melhores notas na escola do que o dono da empresa. Às vezes o catador de papelão é mais nobre, mais corajoso do que o milionário. Às vezes o pobre é mais sábio do que o rico.
O QUE DAVI NOS ENSINA
"Decreto e ordenança para Israel". Um evento, uma batalha se transformaram em princípio a ser considerado e aplicado em situações posteriores. Mandamentos devem ser obedecidos. Princípios devem ser considerados e aplicados com sabedoria. Infelizmente, hoje em dia Davi seria chamado de "comunista", "socialista" ou "marxista". Na verdade, Davi era apenas um homem com um coração agradecido e que reconhecia que pessoas são diferentes e que essas diferenças não devem causar divisões ou criar elites.
"Respeitar as diferenças e as limitações de cada indivíduo". Aqueles duzentos soldados que ficaram para trás teriam oportunidade de mostrar valor em outras batalhas. O fato de terem sido incluídos na distribuição das riquezas seria o motor que os inspiraria no momento oportuno.
"A exclusão gera revolta, raiva, frustração e falta de motivação. A inclusão gera gratidão, inspira e motiva!". Davi disse: "Não façam isso com o que o Senhor nos deu!". Pessoas agradecidas são generosas. Pessoas agradecidas são solidárias. Pessoas agradecidas reconhecem que aquilo que possuem nunca se deve unicamente ao seu mérito pessoal. Alguém ajudou. Alguém estendeu a mão. Alguém deu uma oportunidade. Alguém teve paciência. O médico agradecido lembra do professor que lhe deu um prazo maior na entrega de um trabalho. O gerente agradecido lembra do colega veterano que o apoiou e instruiu quando foi contratado.
A vitória dos quatrocentos soldados serviria de motor e de inspiração para os duzentos soldados. No futuro, eles dariam o melhor de si nas batalhas e dividiriam os despojos com os exaustos. E certamente chegaria o momento em que os preguiçosos, os mentirosos e os malandros não teriam onde se esconder e receberiam o devido tratamento.
Os soldados israelitas entraram no combate com duzentos soldados a menos e mesmo assim obtiveram uma vitória. Davi reconheceu a mão de Deus e estava agradecido. A gratidão inspira a partilha e a solidariedade. A ingratidão gera o egoísmo e a falta de empatia. Os soldados "maus e vadios" camuflaram o egoísmo e a falta de empatia atrás de um falso senso de justiça. Hoje muitas pessoas escondem o próprio egoísmo, a falta de empatia, a falta de solidariedade e a falta de gratidão atrás de uma visão distorcida de "Meritocracia".


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